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Adaga de Kali - por Sammis Reachers


Representação do trágico episódio - Domínio Público
Representação do trágico episódio - Domínio Público

Como o próprio nome indica, a Segunda Guerra Mundial foi combatida em praticamente todo o globo, ou cinco dos seis continentes da Terra, num conflito que envolveu mais de 70 países. Um evento dessa magnitude, claro, forneceu palco para muitas histórias. Longe dos principais teatros de guerra, batalhas tremendas também aconteceram. Além, é claro, de eventos tenebrosos.


Veja por exemplo este caso singular, acontecido durante o avanço japonês sobre Burma (ou Birmânia, atualmente Myanmar), um dos muitos teatros de batalha pouco ou nada contemplados pelas produções literárias ou cinematográficas, onde ingleses e japoneses (e indianos e birmaneses e tantos outros miseráveis) se digladiaram num vasto inferno verde, tisnado de sangue e lama – e horror.


* * *


Na pequena e plena de si Europa, brancos faziam o que fazem de melhor, mas desta vez como jamais: Matavam-se uns aos outros, e ao demais dos homens.


Seu ódio, secularmente viajor, encontrou e esposou o ódio japonês e, unidos, puderam muito maior desgraça.


Desgraça que alcançou bem longe: Em 1942 os desgraçados invadiram meu país, Burma (Birmânia).


Bem, o ataque japonês, terrível para tantos, foi a oportunidade de outros para algo até ali impossível: Libertar-se do domínio inglês. Assim, foi criado o Exército Nacional de Burma, força aliada aos diabos japoneses.


É nesse pandemônio que entro. Eu me chamo Pha Suu. Meu maldito pai foi um inglês, e minha mãe, burmanesa. Sua criada, por sinal. Até a adolescência, fui criado à maneira ocidental, educado numa pequena escola de uma missão protestante. Ao atingir a maioridade, compreendendo melhor a condição de subserviência de meu país ao império branco, subserviência da qual eu próprio era um filho, me afastei daquele estilo de vida e passei a associar-me a movimentos nacionalistas. Viajei para a Índia e até para a União Soviética.


De volta a Burma, quando tinha eu 26 anos e a Guerra dois, me uni às forças do Exército Nacional, oportunamente criado para lutar contra os finalmente enfraquecidos ingleses. Irrefreável em seu avanço, o inimigo de nossos inimigos se apresentou em solo burmanês, e, pela força do momento, rapidamente nos unimos aos japoneses.


Em breve tempo as tropas japonesas e as nossas sobrepujaram os usurpadores ingleses e seus aliados, compostos por traidores da própria Burma e indianos, cujo crime de servidão aos ingleses sequer merece ser nomeado.


Por meses, minha divisão combateu na selva equatorial, onde o verde das plantas e o cinza-amarronzado da lama serviam de camuflagem para os homens e picadeiro para os mosquitos e as serpentes; ocultado pela obstinada densidade das árvores, o céu era inacessível e a morte era o próprio solo sobre o qual tudo o mais parecia estar plantado.


Como batedor, era de minhas funções avançar solitário, apurando o terreno e realizando sondagens.


Não temia os inimigos de meu sangue; mas a função que me competia, e da qual nutria mudo orgulho, logo me lançaria de encontro a um horror inimaginável.


Numa de minhas incursões, quando seguia o intrigante rastro de um batalhão inimigo que parecia simplesmente ter não fugido, mas desaparecido, adentrei uma pequena vila, aparentemente deserta. Avançava com cuidado, lentamente conferindo as choupanas, todas vazias. À altura do meio da pequena aldeia, deparei-me com um tipo de cova ou trincheira, cavada em medidas de uns 4 de circunferência por 1 de profundidade.


Dentro daquele buraco divisei um único cadáver. Era um traste já ressequido, talvez morto já há quase mês. Uma peça de roupa restante denunciava a sua origem como possivelmente um indiano a serviço do Império Inglês. Junto ao corpo, não havia arma de fogo ou qualquer outro item. O que foram suas mãos estavam entretecidas ao redor de uma pequena faca. Com algum esforço, por simples curiosidade destrocei aqueles ossos já expostos e apanhei a peça. Vi então que não se tratava uma faca militar como as dos ingleses, as nossas ou dos japoneses: Era uma arma certamente antiga, com cabo em metal enriquecido com floreios e cravejado com algumas pedras, eventualmente preciosas.


Como batedor, a maior vantagem daquele trabalho de apenas duas vantagens era que eu sempre anexava tudo o que encontrava, e sempre que possível sem ter que compartir o butim com meus comandantes ou companheiros. A segunda vantagem era poder me mover sozinho, livre do risco que o barulho de uma tropa atraía, livre da própria presença das pessoas, que eu prezava evitar.


Aquela adaga haveria de me render um bom dinheiro, nas mãos do comprador certo. Embalei a arma numa faixa de pano e segui minha varredura. Pouco após aquela vila, num ponto da floresta pontilhado por rochas, resolvi me instalar para o pernoite.


Na primeira vigília da noite tive a sensação de que a arma chamava meu nome, enquanto eu adormecia. Tive um sonho, sonho em que eu me vi como que numa forja, um ambiente chamuscado de escuridões, de bolsões ou bolhas de vapores mais ou menos escuros; a sensação era como a de se estar embaixo d’água, tal o peso dos ares. De quando em vez, uma lancinante fagulha vermelha rompia aquele ambiente, seguida sempre de um grito estridente, quase uma gargalhada, mas inumano demais para tal. Me aproximando da origem das fagulhas, via, a cada clarão, que os mesmos eram causados por golpes aplicados sobre uma lâmina de metal.


Acordei. Arfava, creio que pela densa atmosfera do sonho, que parecia me dificultar a respiração. Tomei água do cantil, a maldita água amarga que conseguira num poço da aldeia. Apanhei novamente a adaga, desenrolando o pano em que a envolvera. Fiquei segurando-a, observando seu brilho baço e as pequenas gemas nela incrustadas. Assim devo ter adormecido, pois quando acordei, assustado, ainda estava com ela nas mãos. Nesse intervalo entre um e outro sono tive o segundo sonho. Nele eu era um expectador num gigantesco campo de batalha, nalgum tempo antigo, um tempo soterrado por muitos outros tempos. Espadas como cimitarras e lanças eram brandidas entre milhares de combatentes. Elefantes, enormes elefantes paramentados para o combate avançam de lado a lado, esmagando homens como quem pisoteia bonecas de cerâmica.


Em meio àqueles milhares de homens conflagrados, senti meus pés de repente umedecidos, e era sangue o que os cobria, uma torrente de sangue até meus tornozelos. Estático em meio ao horror, ouvi novamente meu nome. Me virei ou penso que me virei, e então vi seu rápido fulgor, como de uma flecha incandescente, rompendo por sobre minha cabeça.


Aquilo voava rápido demais, mas eu sabia que era ela, a adaga. O que se seguiu foi algo entre o fantástico e o aterrorizante. Numa velocidade como nunca vi nada na natureza possuir, senão talvez o trovão, aquela arma multiplicou-se noutras nove, idênticas, as quais passaram a retalhar todos à sua frente. Homens caiam desmembrados em três ou quatro segundos. Até mesmo os elefantes foram retalhados de uma forma tão cruenta que suas grossas peles caíram de seus corpos colossais, em pequenos quadrados do tamanho da cabeça de um homem.


Quando acordei, a adaga estava em minhas mãos, mas rapidamente a lancei adiante: Estava tão quente que ferira já meus dedos e palmas.


Permaneci sentado de encontro à rocha sob a qual adormecera. Não sabia o que era tudo aquilo, e temi estar sofrendo de nova malária, cujas alucinações eram já minhas antigas conhecidas. Mas, em meio à cisma, me ocorreu algo.


– Levante-se, adaga!


Após pequena expectativa, claramente frustrada, sorri de minha própria sandice.

Fosse como fosse, julguei melhor embalar novamente aquela relíquia; assim que possível me livraria daquele objeto pelo preço que fosse, nas mãos do primeiro oficial japonês que encontrasse.


Andei menos de um quilômetro mata adentro quando me deparei com uma patrulha inglesa. Era norma de meu ofício como batedor anotar sua posição e números, e recuar de encontro aos companheiros soldados que avançavam, talvez a menos de um dia dali.


Foi quando senti a adaga em minha cintura esquentar. Assustado, apanhei a arma e admirava, fascinado, aquela coisa repentinamente incandescida, mesmo sob o pano que a envolvia. Imaginei então que ela, como no sonho, voava pelos ares e, transformando-se em muitas, despedaçava aqueles ingleses.


E ela elevou-se de minhas mãos e assim o fez.


* * *


Era inacreditável, e era minha. Minha. Munido daquela máquina de extermínio, me desliguei da tropa, agora inútil, cuja companhia, fraqueza, imundície, barulho e lentidão me enfadavam até o estupor; senhor de tal poder, passei a exterminar todos os ingleses e traidores que encontrava na selva.


Em algum tempo havia limpado a região possível de alcançar a pé – eles, talvez conhecedores do inimigo que os acossava, recuavam mais rápido do que eu, ou a arma, podia encontrá-los e matá-los.


Era quase o vigésimo dia de caça e extermínio quando algo novamente surpreendente, se isso fosse possível, aconteceu.


Numa ravina umedecida, lamacenta após um dia inteiro de chuvas, me deparei com um destacamento de indianos. Aquele grupo, formado por algo em torno de 15 homens, percebeu meu avanço por entre a mata, mas não recuou, e sequer fez fogo; como que aguardavam minha aproximação. Desconfiado, avancei apenas mais alguns metros e solicitei a adaga, que se elevou a partir de minha cintura, pairando a coisa de dois metros e meio do solo, como era seu proceder corriqueiro. Neste momento, um dos inimigos adiantou-se. Percebi então que aquele elemento não se parecia exatamente com os demais; tinha a pele como a dos japoneses, num tom embranquecido, e vestia um manto cujas cores lembravam o de monges tibetanos.


Enquanto tentava digerir o inusitado de tudo aquilo, vi o suposto monge levantar, de maneira cerimoniosa, uma espécie de pote de barro, e em seguida remover-lhe a tampa. Em concordância com o movimento deste, quatro ou cinco outros daqueles elementos estenderam os braços e, cada um com uma faca, aparentemente espetou a própria mão.

Neste momento, um vórtice se manifestou sobre aquele grupo, um emaranhado de ventos que foi assumindo uma cor de cinza, um cinza crescente como de grossa poeira, e finalmente do pote eclodiu uma fumaça negra, fumaça que se uniu ao vórtice, enegrecendo-o, e em seguida assumindo uma forma ou silhueta humana.


Aquela criatura ou demônio composto de sombras pareceu então olhar em minha direção. A adaga, que até ali pairava sobre mim, disparou como que impelida por um canhão, emitindo um estrondo – como se o ar explodisse de encontro ao seu avanço.


A criatura materializou algo como uma fina e longa espada, e defendeu o primeiro golpe da adaga, mesmo àquela velocidade inimaginável.


Pela primeira e única vez vi uma força que se opôs à sua eficácia assassina. O que se seguiu foi uma batalha de esgrima que talvez a Terra jamais tenha visto, ou quiçá apenas nos tempos atávicos, quando gigantes e os construtores da adaga ou mesmo aquela sombra, então encarnada, andavam pela terra. Foi fascinante ver o estardalhaço de faíscas e o retinir ribombaico de lâmina contra lâmina, cuja velocidade imitava o som da metralha.


Nesse meio tempo os soldados indianos começaram a fazer fogo contra minha posição, obrigando-me a recuar para buscar abrigo sob um conjunto de árvores. Cegamente confiante no poder da adaga, eu deixara de carregar comigo armas outras que não ela; e agora nada possuía com que pudesse responder à saraivada de tiros de meus inimigos.


O temor pela minha vida, que há tanto não sentia, pouco durou. Meu horror e desconcerto cresceram quando vi a adaga por fim sobrepujar aquele outro ser místico, atravessando-o muitas vezes após o ter desarmado, fazendo da fumaça densa e negra que o compunha, esparsa bruma, e logo nada. Destino idêntico abraçou a todos os adversários, a começar pelo invocador do demônio.


Naquele dia, único sobrevivente sobre aqueles quinze cadáveres, mesmerizado pelos acontecimentos e eufórico como um homem narcotizado, me senti o próprio avatar da morte.


* * *


Nos dias seguintes, segui minha senda em busca de livrar toda a Burma das mãos dos seus inimigos.


Embora nada fizesse, senão encontrar os adversários e entregá-los à sanha da arma, após um mês o cansaço dos avanços acelerados no encalço dos adversários começara a me debilitar. Recolhi-me a uma caverna e tencionava descansar por dois dias inteiros, antes de retomar a perseguição.


Foi quando voltei a ter sonhos. A adaga queria mais sangue. Queria, a julgar pelos sonhos que envenenaram minha noite, que eu matasse qualquer pessoa ao alcance; que eu me voltasse contra os japoneses – que, com a solidão, eu avaliara ou finalmente compreendera serem “senhores” ainda piores do que os ingleses – e o próprio Exército de Burma.


Rolando de pesadelo em pesadelo, mal pude repousar no primeiro dia e noite.

Antes de completar o segundo dia de meu intencionado descanso, não suportando mais as alucinações causadas pela opressão da arma, retomei meu avanço. Andei três dias sem encontrar alma alguma, no máximo cadáveres de adversários atingidos pelos bombardeios da aviação japonesa.


À noite, os sonhos eram sempre os mesmos, apelos teatralizados da adaga por mais e mais sangue.


Prossegui. Finalmente adentrei a uma pequena vila, próxima de Mandalai. Era por volta do meio-dia. Divisei, entre a população local, soldados burmaneses à serviço da Inglaterra. Não fiz questão de me esconder. Avancei pela ruazinha principal, praticamente a única da pequena localidade. Os combatentes logo deram por minha presença, mas eu era apenas um homem solitário e sem uniforme militar.


Antes que pudessem se aproximar para indagar quem eu era, elevei ou desci meu pensamento até as trevas da adaga, que prontamente expeliu-se de minha cintura e avançou até os adversários. Pude divisar seu horror ao ver aquela pequena lâmina flutuar e estacionar, momentaneamente, a três metros de altura diante dos mesmos. Em seguida a arma desdobrou-se como num leque, e imediatamente as nove lâminas fizeram seu trabalho. Após perceber que ela despedaçara a todos os combatentes, ergui minha mão esquerda em sua direção, como já me habituara a fazer, para recolhê-la.


Mas a arma não tornou. Ao invés disso, passou a alcançar e retalhar os moradores do local, que a tal altura já haviam fugido para seus casebres ou para a floresta. Por mais que eu mentalizasse sua volta, o artefato não me obedecia.


Eu não sabia o que fazer e, depois de muito tempo, novamente temi, como se voltasse a ser um homem.


Havia já desistido de recuperar a arma, e pensava mesmo se seria melhor fugir, pois, descontrolada, que impediria a faminta de saciar-se comigo? Enquanto recuava pelo caminho que me levara até aquela vila agora arrasada, ela se aproximou sem que eu percebesse e, tranquilamente, enfiou-se mais uma vez em minha cintura. Estava quente e empapada de sangue.


Naquele momento, ao invés de avançar, retornei a um ponto anterior da mata, onde sabia que não encontraria pessoas. Não permitiria que aquele apetrecho exterminasse a meu próprio povo, motivo de minha luta. Enfurnei-me na mata e lá permaneci, tentando encontrar uma solução para aquilo. Neste período, a cada vez que adormecia, fosse de dia ou de noite, os sonhos de morticínio me assaltavam. Eu tentava resistir, sonho após sonho, impedir a arma, submetendo-a ao meu comando, mas nos sonhos a arma sempre voltava a matar; sua vontade de potência era sempre maior que a minha.


Pensei em quebrá-la. Porém, ao tirá-la da cintura e a colocar sobre uma grande rocha, para golpeá-la com uma pedra, no momento mesmo em que levantei a pedra em minha mão para desferir o golpe, a adaga voou, atravessou a pedra em minhas mãos, explodindo-a pela velocidade e força do impacto, e dilacerando um de meus dedos. Em seguida tornou à minha cintura.


Mas eu não cederia; se a arma desejava conhecer meu vigor como patriota burmanês, ela seria saciada, nem que fosse com meu próprio sangue. Enquanto a guerra lá fora avançava, eu resolvi ficar estacionado naquele ponto, e passei mesmo a deixar de me alimentar, tal era a angústia de não saber como resolver aquele impasse ou livrar-me daquele braço do inferno morando em minha cintura.


Me ocorreu então que talvez tenha sido este o destino do anterior usuário – ou fantoche – da arma, o indiano de cujas mãos cadavéricas a arranquei. Pois que fosse.


Após sete dias miseráveis, sucedidos por noites cujo assombrado tormento humano algum deveria sentir, definhando apenas à base de água, tive um sonho diferente, ou melhor, não era agora um sonho, mas uma visão.


Era a própria deusa ou asura (antideusa) Kali quem me acordara. Estava ali, criatura pouco maior que um homem alto, peles azuis rutilantes cobrindo seu corpo de quatro braços. Numa língua que jamais ouvi, mesmo em meus anos na Índia multilíngue, a criatura – e eu a podia compreender! – viera me apresentar um ultimato. Eu deveria dar mais sangue à adaga, mais sangue ou o meu próprio sangue a alimentaria, como afinal já estava acontecendo, pois ela confirmou o que eu imaginava: minha fraqueza dos dias anteriores, a fraqueza que eu sentia crescer desde que obtivera a adaga, era causada pela arma sombria.


Já tendo visto dilaceradas em minha alma as fronteiras entre sonho e realidade, inferno e terra, asseverei que não, que não serviria mais de cavalo para transportar aquele artefato ignominioso. Aproximando-se de meu rosto, a criatura ou criadora enfiou um de seus dedos em meu peito, que penetrou em meu corpo como brasa, parando a milímetros de meu coração.


Nesta hora final, um morto sendo morto em um catre imundo de palha e lama, um culpado sem remissão e amaldiçoado sem chance alguma de livrar-se, me ocorreu um estranho pensamento. Pensamento que, contra todas as possibilidades, fez como que explodir aquela invertida realidade ou pesadelo que a tudo engolfara.


A criatura ou criadora hindu foi, em alguns breves segundos, atravessada dezenas e dezenas de vezes pela própria arma que me confiara.


Enquanto arfava pela fraqueza e pelo ferimento em meu peito, pude ver os vapores sinistros em que a criatura ou criadora se esvaia, vapores que se expandiram até que um pequeno e repentino estouro, fazendo-os como que reagruparem-se ou comprimirem-se, a consumiu.

Sem um corpo a retalhar, a adaga caiu ao chão, inerte. Inviabilidade suprema, a arma forjada pela deusa da morte eliminara aquela mesma que a forjou, como se o caos, faminto de sua própria natureza absurda, se autodevorasse.


Ou terá sido o nome que gritei, o nome que gritei em desespero no momento mesmo em que, olhando nos olhos vermelhos da morte dançarina, sentindo seu dedo queimando minha carne, lacerando os segundos que me restavam, mentalizei a adaga e solicitei uma vez mais seus serviços? O nome daquele que diziam em minha infância ter enfrentado a morte e a vencido, o nome daquele outro deus asiático, deus do opressor e deus dos oprimidos, aquele judeu nazareno, ယေရှု?


* * *


Quanto à adaga, nunca mais ouvi sua voz, seu chamado. Enquanto em minhas mãos, ela jamais voltou a matar, assim como eu, que me refugiei no isolamento da floresta até o fim da guerra.

Nem tive mais pesadelos, fato que me espanta, pois seria comum sonhar com o que vivi, independente da influência da arma.

Um ano após o fim da guerra, vendi a lâmina a um americano, em Mandalai.


* * *


Sammis Reachers é poeta, escritor e editor, autor de dez livros de poesia e três de contos e crônicas, organizador de mais de cinquenta antologias e professor de Geografia no tempo que lhe resta – ou vice-versa.


Publicou neste mês seu primeiro romance, o thriller de ação A Ordem Luterana da Cruz Combatente (disponível como e-book na Amazon e como livro impresso na Uiclap).

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