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Os reis, de Julio Cortázar - por Erick Bernardes


Resenha sobre Os reis, de Julio Cortázar

 

CORTÁZAR, Julio. Os reis. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2001. 82 p.

 

Monstros, esses seres fabulosos estiveram sempre presentes nos clássicos gregos e inegavelmente nutriram a nossa cultura. Na linguagem mitológica, tais figuras imaginárias “eram seres de partes ou proporções sobrenaturais, em via de regra encarados com horror, como possuindo imensa força e ferocidade, que empregavam para perseguir e prejudicar os homens” (BULFINCH, 2006, p. 126). O Minotauro é uma dessas criações híbridas, meio homem meio bicho, cabeça de touro e corpo humano, e vem percorrendo o imaginário da literatura ocidental por séculos.


Assim, ao compor uma obra cujo eixo temático gira em torno do prisioneiro do labirinto de Dédalo e seus personagens próximos, quem se aventure a escrever algo que tenha a ver com a poética clássica incorrerá consequentemente no risco de reproduzir os moldes cansados das narrativas ditas tradicionais. Ora, se por um lado, o escritor insiste em tal empreitada, consciente do perigo da repetição estética, por outro lado, ao fazê-lo ele tem a chance de transgredir esses mesmos padrões compreendidos como “originais”.

Nesse viés desconstrutor, Julio Cortázar compõe o livro Os reis (2001), uma tragédia cuja estratégia composicional apontaria justamente para as diferenças possíveis no que concerne ao texto ficcional. Não é ocasional que a monstruosidade referida ao ser híbrido e subalterno evocará o olhar crítico de Cortázar, acerca daquilo que se compreende em literatura por estética contemporânea. Se parafrasearmos Luiggi Pirandello, certificaremos que o Minotauro é ao mesmo tempo ideia e forma, conforme:

 

[...] personalidade de cada um vista em sua multiplicidade, conforme as diferentes possibilidades do ser presentes em cada um de nós; e finalmente, o trágico e imanente conflito entre a vida que continuamente se move e muda e a forma que, ao contrário, procura torná-la imutável. (PIRANDELLO, 1978, p. 331)

 

Sendo assim, a poética de Cortázar se mostra um experimento, uma ideia (ab)erração da tradição, uma metáfora do hibridismo cultural e das misturas de gêneros tão presentes no panorama literário compreendido como pós-moderno. A linguagem de Os reis (2001) é clássica, sua forma dramática está repleta da musicalidade, jogos semióticos, que fazem da obra uma narrativa prenhe de significados. Nas palavras do prefaciador da edição brasileira Ari Roitman (2001, p. 6), sua escrita “dá a impressão de constituir uma espécie de ‘ensaio geral’ para tudo que brotaria a seguir da sua pena e criatividade fervilhantes”.


A aludida amálgama entre sentido e forma do texto cortaziano evoca no tecido discursivo proporções de metalinguagem, porém, estruturadas em discurso direto livre, tipicamente nos moldes de uma peça teatral. Ademais, ao confrontar-se com a criatura horrenda, Teseu travará um diálogo com o Minotauro, mais próximo de um torneio linguístico do que de uma narrativa épica: “Pergunta em vão. Nada sei de ti: isto dá força à minha mão” (CORTÁZAR, 2001, p. 63). Tal procedimento composicional combina então duas variáveis semânticas; uma, herdeira de modelos clássicos dos “grandes feitos” heroicos, e outra, contrariamente, híbrida, desconhecida e disforme: “Fala-se tanto de ti que és como uma vasta nuvem de palavras, um jogo de espelhos, uma reiteração de fábula inapreensível. Tal é ao menos a linguagem dos meus retóricos” (CORTÁZAR, 2001, p. 63-64).


Segundo Luiz Costa Lima (1993), essa dupla articulação significativa apresenta-se como aqueles dois “limites da voz”, tratados em seu livro homônimo - sobre as implicações da concepção moderna de literatura - a qual adaptada à nossa abordagem teórico-analítica -, em que decerto reforçará um diálogo tecido sobre a bifurcação do eu: a) um narrador circular “constituído pela legitimação” da épica clássica, b) outro narrador provocador, cuja voz reflete o “questionamento da construção intelectual proveniente do primado da subjetividade” (p. 16).


Sucintamente, o duplo quadro esquemático se nos apresenta, por vezes, orientado por uma “lei” antiga da cultura ocidental, por outras, mais próximo de um poema metalinguístico, em que pese o diálogo ressaltado, sobretudo, por seu viés metaficcional. Assim, em resposta à fala do herói assassino, o Minotauro replicará: “Deverias golpear com uma fórmula, uma oração: com outra fábula” (CORTÁZAR, 2001, p. 64). Não seria este mesmo artifício ou “fórmula” o jogo estratégico de Cortázar? Com a fábula clássica não teria o escritor belgo-argentino “enfabulado” uma poética nova, ou o tal experimento híbrido mencionado por seu prefaciador Roitman? A resposta seria um paradigma oracional simples e sucinto proferido por Ariadne, famosa por sua linha: “Falar é falar-se” (CORTÁZAR, 2001, p. 21).


Tendo, contudo, abordado o Minotauro e o seu labirinto, pensamos a experiência da escrita alegórica do mito antropomórfico como fuga dos modelos de repetição estética e reprodução inerte, mas uma atenção à palavra que fala de si mesma, conforme Roland Barthes, “a demonstração prática da subversão do discurso, por um trabalho de sapa levado a efeito em seu interior.” (2007, p. 56). Sob a dramatização limite entre o clássico e o moderno do monstro em questão, o texto “experimento” relaciona uma concepção polissêmica da figura mitológica da Antiguidade com o hibridismo cultural característico do mundo contemporâneo.


Em síntese, esse é “o labirinto” reinventado por Julio Cortázar, a língua pela língua, linguagem acerca da linguagem, literatura por ela mesma. Ou, dito de outro modo, conforme Costa Lima (1993, p.16), o “reconhecimento do eu” por si próprio, embora, simultaneamente “acompanhado por um (eu) segundo” (o narrador de Cortázar), evidenciando, enfim, uma voz transgressora, no que tange às estâncias legitimadoras que lhe emprestaram orientação e sentido, em reconhecimento da mistura de gêneros do pequeno volume Os reis (lançado em 1949), mas que lida hoje mostra-se muitíssimo atual.

 



Referências bibliográficas

 

BARTHES, Roland. Aula. 14 ed. São Paulo: Cultrix, 2007

 

BULFINCH, Thomas. O livro de ouro da mitologia. Rio de Janeiro: Ediouro, 2006.

 

CORTÁZAR, Julio. Os reis. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2001.

 

LIMA, Luiz Costa. A metamorfose do silêncio. Rio de Janeiro: Eldorado, 1974.

 

______. Limites da voz: Montaigne, Schlegel. Rio de Janeiro: Rocco, 1993.

 

PIRANDELLO, Luiggi. Seis personagens à procura de um autor. São Paulo: Abril Cultural, 1978.

 

 

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